Julho Verde: oito em cada dez casos de câncer de cabeça e pescoço são descobertos tardiamente no Brasil
Durante o mês da campanha, especialistas alertam para sintomas frequentemente ignorados e explicam por que a doença já não atinge apenas o perfil clássico de pacientes
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O Julho Verde, campanha nacional dedicada à conscientização, prevenção e combate ao câncer de cabeça e pescoço, já começou em todo o país. A medida que agrega instituições públicas e privadas funciona como um alerta nacional, principalmente pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) constatar que 8 em cada 10 casos de câncer de cabeça e pescoço no Brasil são diagnosticados em estágios avançados, o que reduz significativamente as chances de cura e torna o tratamento mais complexo.
O levantamento, feito pelo INCA em 2025, apurou mais de 145 mil casos registrados no país e reforçou a necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico e à informação. Segundo o oncologista Adolfo Pentagna Silvestre, do Barralife Medical Center, a campanha Julho Verde busca conscientizar a população sobre os fatores de risco e os sinais iniciais da doença. "Quando o diagnóstico acontece precocemente, as chances de cura podem chegar a aproximadamente 80%. No entanto, o caminho entre a avaliação inicial e a confirmação do diagnóstico pode levar alguns meses, período em que o tumor pode evoluir e tornar o tratamento mais desafiador”, explica,
O câncer de cabeça e pescoço engloba tumores que acometem boca, língua, garganta, laringe, faringe, glândulas salivares e tireoide. Embora o tabagismo e o consumo excessivo de álcool permaneçam entre os principais fatores de risco, os especialistas observam uma mudança importante no perfil dos pacientes.
A infecção pelo HPV, transmitida principalmente pelo sexo oral desprotegido, tem aumentado a ocorrência de tumores na orofaringe entre pessoas mais jovens, muitas vezes sem histórico de tabagismo ou alcoolismo. A má higiene bucal e a exposição solar sem proteção também contribuem para o desenvolvimento de alguns tipos da doença.
Sintomas que não devem ser ignoradosO atraso na procura por atendimento ainda representa um dos maiores desafios para o controle da doença. Feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente, dificuldade para engolir, sensação de algo preso na garganta, caroços no pescoço, sangramentos sem causa aparente e alterações na voz costumam ser confundidos com problemas simples, fazendo com que muitos pacientes adiem a avaliação médica.
Segundo o cirurgião de cabeça e pescoço Rafael Zdanowski, da Clínica Otolife e também do Barralife Medical Center, qualquer sintoma que persista por mais de duas a quatro semanas merece investigação especializada.
"O maior erro é acreditar que esses sinais são apenas uma afta, uma infecção de garganta ou um problema dentário e recorrer à automedicação. Quanto mais cedo o paciente procura um especialista, maiores são as chances de um tratamento menos agressivo e com melhores resultados", afirma. Ele ressalta ainda que consultas de rotina com dentistas, otorrinolaringologistas e clínicos gerais podem identificar alterações suspeitas antes mesmo do surgimento de sintomas mais graves.
Novas tecnologias e um novo perfil de pacientesAlém de avanços importantes no tratamento, como imunoterapia, cirurgia robótica, procedimentos minimamente invasivos, radioterapia de alta precisão e exames de imagem cada vez mais sensíveis, especialistas chamam atenção para a transformação no perfil epidemiológico da doença. Hoje, o câncer de cabeça e pescoço não está mais restrito ao perfil clássico de homens mais velhos, fumantes e consumidores de álcool. O crescimento dos casos associados ao HPV fez com que tumores de orofaringe passassem a ser diagnosticados também em adultos mais jovens e com hábitos considerados saudáveis, ampliando a necessidade de conscientização sobre prevenção e vacinação.
Durante o Julho Verde, os especialistas reforçam que abandonar o cigarro, moderar o consumo de bebidas alcoólicas, manter boa higiene bucal, proteger-se da exposição solar, vacinar-se contra o HPV e procurar avaliação médica diante de sintomas persistentes continuam sendo as principais estratégias para reduzir o impacto da doença. "Quanto mais cedo o câncer é identificado, maiores são as possibilidades de tratamento com preservação da qualidade de vida e melhores índices de cura. Informação e atenção aos primeiros sinais continuam sendo nossas maiores aliadas", conclui Adolfo Pentagna Silvestre.
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