Cansado ou entediado? Especialista explica por que o Brasil confunde burnout com falta de estímulo no trabalho

Brasil é o segundo país com mais casos de burnout do mundo, atrás só do Japão. Para gerente de RH da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, nem todo desejo de trocar de emprego nasce de exaustão real

Por PEDRO SENGER
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Foto: Freepik

O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de casos diagnosticados de burnout, atrás apenas do Japão, segundo levantamento da International Stress Management Association (ISMA-BR). De acordo com a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a síndrome, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença ocupacional desde 2022. Dados do Ministério da Previdência Social mostram ainda que os afastamentos por burnout cresceram 493% entre 2021 e 2024 no país.

Os números são alarmantes, mas, na avaliação de Patricia Suzuki, Diretora de RH da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, nem todo desconforto no trabalho que leva alguém a procurar uma nova vaga é, de fato, burnout. "Existe uma confusão comum entre exaustão real e tédio crônico. Os dois fazem o profissional querer sair do emprego atual, mas as causas são opostas, e por isso a solução também precisa ser diferente", explica.

Segundo a executiva, o burnout costuma vir acompanhado de exaustão física e emocional persistente, mesmo fora do horário de trabalho, além de um distanciamento crescente das tarefas e da sensação de que nada do que é entregue é suficiente. "Quem está em burnout geralmente sente que está dando o máximo e ainda assim não é o bastante. É uma exaustão que não passa com um fim de semana de descanso", descreve.

Já o que ela chama de tédio crônico, às vezes referido como boreout, tem uma origem quase oposta: falta de desafio, de propósito ou de desenvolvimento na função atual. "O profissional não está exausto, está subutilizado. Geralmente está bastante ocupado, mas por tarefas repetitivas, que não apresentam desafios ou estímulos. Ele tem energia de sobra, mas não vê para onde direcioná-la dentro daquele trabalho. É uma frustração diferente da do burnout, mesmo que o sintoma final pareça parecido: vontade de sair", pondera Patricia.

A neurociência ajuda a entender por que o tédio crônico é tão desgastante quanto a sobrecarga. Pesquisas publicadas no campo da psicologia organizacional, entre elas estudos da Universidade de Waterloo, no Canadá, mostram que o cérebro humano é wired para buscar novidade e significado. Quando privado de estímulos, o sistema de recompensa dopaminérgico entra em queda, gerando um estado de inquietação, desmotivação e até ansiedade, sintomas que se confundem facilmente com os do esgotamento profissional. Diferente do burnout, porém, em que o cérebro sinaliza sobrecarga e pede parada, no boreout ele sinaliza privação e pede movimento, o que explica por que o descanso não resolve e a vontade de trocar de emprego persiste mesmo sem carga de trabalho excessiva.

Para a executiva, essa diferença aumenta a relevância com a atualização da NR-1, que passou a exigir das empresas a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Em casos de burnout, a prioridade costuma ser reduzir carga, buscar apoio profissional e, se necessário, afastamento para tratamento, antes mesmo de pensar em trocar de emprego. Já em casos de tédio crônico, a solução pode estar dentro da própria empresa, com mudança de função, novos desafios ou projetos paralelos, sem necessariamente exigir uma demissão. Saber distinguir os dois quadros, portanto, deixou de ser apenas uma questão de bem-estar individual e passou a ser uma responsabilidade organizacional.

"Antes de pedir demissão por estar infeliz no trabalho, vale se perguntar: eu estou exausto ou estou entediado? A resposta muda totalmente o próximo passo, e muita gente troca de emprego achando que vai resolver um problema que, na verdade, é sobre estímulo, não sobre carga de trabalho", recomenda Patricia.


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