O custo clínico da comunicação fragmentada

Silvio Vidoto, head of Indirect Business da Mitel no Brasil

Por CAREN GODOY
6 Min

O custo clínico da comunicação fragmentada
Imagem ilustrativa
O setor de saúde se acostumou a medir eficiência em minutos. Tempo porta-balão em casos de infarto, tempo de atendimento no pronto-socorro, tempo cirúrgico, tempo médio de permanência. Mas existe um intervalo pouco monitorado dentro dos hospitais que influencia diretamente todos os outros, e ele depende de uma infraestrutura que raramente aparece nas discussões clínicas: a de telecomunicação.

O tempo entre um alerta crítico e a chegada da informação ao profissional responsável é, antes de qualquer coisa, um problema de Telecom. Em situações como parada cardiorrespiratória ou AVC, esse atraso não é operacional. É clínico. Quando o cérebro começa a sofrer danos permanentes após poucos minutos sem oxigênio, a velocidade com que um sistema de comunicação entrega a informação certa à pessoa certa deixa de ser um tema de TI e passa a interferir diretamente no desfecho do paciente.


Mesmo hospitais com equipes qualificadas e protocolos bem estruturados convivem com uma infraestrutura de telecomunicação fragmentada. Alertas circulam entre sistemas desconectados: pagers, aplicativos de mensagens, chamadas telefônicas e sistemas de som interno. Muitas vezes, a lógica ainda funciona no modelo "avisar todos" em vez de localizar rapidamente quem realmente está de plantão. O resultado, muitas vezes, é um ambiente sobrecarregado por notificações irrelevantes, atrasos de resposta e aumento da fadiga operacional das equipes médicas e assistenciais. Em muitos casos, um enfermeiro ou médico perde tempo tentando descobrir quem deveria receber determinada informação enquanto o relógio clínico continua correndo. O problema não está na competência da equipe, está na rede de comunicação que conecta (ou não) as pessoas dentro da operação.

Esse problema raramente aparece nos relatórios executivos dos hospitais, embora tenha impacto direto sobre risco jurídico, ocupação de leitos e custo operacional. Nos Estados Unidos, estudos apontam que falhas de comunicação estão associadas a mais de 70% dos chamados eventos sentinela, classificação usada para incidentes graves envolvendo morte, dano permanente ou riscos severos ao paciente. Além do impacto assistencial, essas falhas alimentam processos por negligência, ampliam o desgaste das equipes e pressionam sistemas de saúde que já operam sob escassez de profissionais especializados. O denominador comum em grande parte desses casos é a infraestrutura de telecomunicação que deveria garantir a circulação da informação em tempo real e que, na prática, opera com lacunas que ninguém monitora formalmente.

O ponto mais sensível é que muitos desses atrasos não são causados pela ausência de tecnologia, mas pela forma como ela foi incorporada ao longo do tempo. Grande parte dos hospitais construiu sua infraestrutura de maneira fragmentada, adicionando ferramentas isoladas conforme surgiam novas necessidades. Um sistema de chamada de enfermagem em um momento, um aplicativo de mensagens seguras em outro, uma plataforma separada para telefonia ou alertas clínicos. Cada uma dessas camadas foi adicionada para resolver um problema pontual, mas nenhuma delas foi pensada como parte de uma arquitetura de comunicação integrada. O resultado é um ecossistema que funciona parcialmente, mas sem a coesão necessária para garantir que uma informação crítica percorra o caminho correto sem intervenção manual.

Na prática, a diferença entre uma comunicação reativa e uma operação estruturada está na capacidade de transformar alertas em fluxos coordenados. Isso envolve direcionar notificações diretamente ao profissional responsável, automatizar escalonamentos quando não há resposta imediata e garantir redundância entre voz, mensagens seguras e aplicativos corporativos. Também exige integração com sistemas hospitalares, como o prontuário eletrônico do paciente e plataformas de enfermagem, evitando que dados clínicos fiquem isolados em ambientes paralelos. Em hospitais europeus que unificaram sua infraestrutura de telecomunicação hospitalar, os resultados aparecem em indicadores concretos, com reduções de até 20% no tempo de chamadas internas e melhora na capacidade de localizar equipes médicas em qualquer ponto da instituição.

A discussão, porém, esbarra em uma dificuldade recorrente no setor: a infraestrutura de telecomunicação costuma ser tratada como despesa operacional, não como infraestrutura clínica. Isso cria um desalinhamento entre o impacto do problema e a prioridade dada a ele nos investimentos hospitalares. É mais simples justificar a compra de equipamentos médicos visíveis do que demonstrar retorno financeiro sobre eventos adversos evitados ou minutos economizados em um atendimento crítico. Existe ainda um problema de mensuração. Poucos hospitais acompanham indicadores como tempo médio entre alerta e resposta ou percentual de notificações entregues corretamente na primeira tentativa. Sem esses dados, falhas na rede de comunicação permanecem invisíveis dentro da gestão hospitalar.

A pergunta que começa a surgir entre gestores hospitalares não é mais se existem soluções de telecomunicação capazes de resolver esse gargalo. A questão é quanto tempo as organizações de saúde conseguem continuar operando com uma infraestrutura construída por remendos, enquanto investem em equipes, equipamentos e protocolos que dependem dessa mesma infraestrutura para funcionar. Em hospitais, Telecom não é suporte. É a camada que sustenta a circulação de decisões em ambientes onde segundos alteram prognósticos, ampliam riscos jurídicos e definem a capacidade operacional da instituição.

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CAREN GODOY DE FARIA
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