A Anatomia das Ideias: Líderes da comunicação revelam seus métodos e rituais criativos

Para marcar o Dia Mundial da Criatividade, executivos do setor discutem como transformam repertório e disciplina em inovação dentro de um mercado sob constante pressão.

Por JéSSICA NAKAYAMA CASTRO
5 Min

A Anatomia das Ideias: Líderes da comunicação revelam seus métodos e rituais criativos
Assessoria
 

A criatividade nunca foi tão exigida e, ao mesmo tempo, tão testada. Em um mercado marcado por prazos curtos, excesso de informação e a onipresença da inteligência artificial, criar deixou de ser um momento isolado de inspiração para se tornar um exercício contínuo de repertório, disciplina e adaptação.

Para marcar o Dia Mundial da Criatividade, celebrado em 21 de abril, quatro grandes nomes do setor compartilham como lidam, na prática, com esse processo. Entre inspirações improváveis, momentos de bloqueio e rituais particulares, emerge um retrato mais realista e menos romantizado da criação no ambiente profissional.

Para Maurício Oliveira, Diretor de Criação da Calia/FSB, a criatividade é uma musculatura que exige exposição constante a novos estímulos:

“A criatividade precisa ser praticada, independente da área de atuação. É da natureza humana ser criativo. Especialmente nós, brasileiros, somos mestres em encontrar soluções criativas para tudo na vida. Mas é preciso praticar. Ajuda muito também beber de diversas fontes. Somos o que consumimos. Quem lê, escuta e vive as mesmas coisas tende a reproduzir aquilo. É preciso dar oportunidade para que a mente tenha acesso a outras perspectivas e novas visões de mundo.”

Essa busca por referências se expande para as experiências cotidianas e a observação sem filtros. Sob a ótica de direção e estética, Pedro Giomi, Sócio-fundador da Aurora, reforça a importância da "mistura" e da organização externa para compensar o caos criativo:

“A publicidade é o melhor campo de experimentação, mas muita coisa nasce da observação do cotidiano, sem curadoria. Meu conselho é: misture. Beira o impossível criar algo do zero, então misture o máximo que puder. No meu processo, não regulo horários e me permito criar na madrugada, mas preciso de ordem externa: não me concentro se minha mesa e minha sala não estiverem perfeitamente organizadas. Minha mente já é uma bagunça, então se o entorno não estiver em ordem, a coisa se complica.”

Complementando a visão de que a vida real alimenta o trabalho, a criatividade ganha força quando se despe do peso da obrigatoriedade e abraça o entusiasmo. André Havt, CCO da DRUM, que lança em breve um livro sobre liderança criativa pela editora Kotter, defende o prazer no processo:

“O que mais me inspira é a vida ao redor; nada supera a vida acontecendo em tempo real. Para mim, a criatividade é amiga dos despreocupados e o processo não pode ser apenas tensão, por isso meu conselho é: divirta-se. Acredito tanto no prazer de criar que passei o último ano transformando essa inquietação em um livro sobre liderança criativa.”

No entanto, mesmo o repertório mais vasto não elimina os bloqueios. Em um cenário onde a IA tornou a "ideia" uma commodity, o diferencial passa a ser a bagagem humana e a capacidade de síntese. Erh Ray, fundador e CEO da BETC HAVAS, consolida essa visão ao tratar a simplicidade como o objetivo final:

“Para mim, a boa publicidade nasce quando olhamos para fora dela: cultura, moda, arquitetura e conversas inesperadas. No meu processo, não sigo rituais fixos, mas tenho o hábito de tentar simplificar tudo ao máximo. Quando uma ideia é verdadeiramente boa, ela é simples de explicar, se o remédio é bom, você não precisa ler a bula! É essa simplicidade que gera a ‘inveja criativa’: a sensação de ver uma solução que sempre esteve ali, mas ninguém tinha feito. Para que tudo isso flua, a criatividade precisa de respiro. Quando sinto um bloqueio, eu paro. É preciso dar tempo ao pensamento para que a conexão aconteça.”

Em um mercado que exige respostas rápidas e, simultaneamente, profundas, a criatividade se consolida menos como um lampejo de genialidade isolada e mais como uma construção coletiva feita de tentativa, erro e troca. O que esses líderes mostram é que criar, hoje, passa por saber provocar perguntas melhores e, acima de tudo, ter a coragem de simplificar o complexo.


 

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